domingo, 3 de julho de 2011

Casamento

O ócio perturbador me arrasta por devaneios insanos, fazendo-me chegar a conclusões espúrias sobre coisas sem sentido e tudo o mais! Entendeu?

Tenho muito tempo livre. Preencho com várias atividades e sobra tempo, então penso. Esse é o problema! Na maioria das vezes são pensamentos rápidos, sem importância. Outras vezes, levo horas matutando coisas grandes, também sem importância, mas que chegam a algum ponto maluco e, por ventura, a estas linhas. Aqui vai um deles!

A prática da medicina é como um casamento (palavras de um inexperiente). O noivo é o médico (sem chauvinismo, juro!). A noiva, obviamente, é o paciente. É um casamento que pode vir de forma natural, o amor pela profissão, ou mesmo arranjado, pelos pais do noivo, é claro. Há até os casamentos forçados! Terminada a cerimônia, o grande baile, cada um vai pra casa cuidar de seu matrimônio. O consultório é o quarto (ou a cozinha, cada um com suas manias). É lá que o relacionamento se desenvolve, cresce, amadurece e, por vezes, acaba.

Como todo relacionamento, ele é baseado no diálogo! Se houver uma boa dinâmica, ele flui perfeitamente para o deleite de ambas as partes. Quando pouco, termina de maneira muitas vezes dolorosa (voltaren® ou benzetacil®). Para que dê certo, tem que saber as procedências, se a idade é compatível, algumas coisas do passado, conhecer a família, onde mora, se gosta de bichos, se tem filhos. Passado tudo isso, chegamos ao clímax! O exame físico. Quando bem executado, tira-se grande proveito e agrada as duas partes.

Não existe casamento igual. Em alguns o diálogo não existe, apenas ação. Em outros, falta ação! Há aqueles baseados na aparência, os unicamente registrados por imagens, os que te botam pra dormir e aqueles que só querem teu sangue! Também existem as falhas. O que dizer de um casamento baseado em mentiras? Há médicos que prometem tratamentos miraculosos, assim como pacientes que inventam doenças mirabolantes. Resultado disso, fracasso a vista.

Terminado o processo, havendo honestidade e dedicação, os frutos do casamento são doces e vistosos! Por fim, lá no finalzinho, um bom médico pode fazer uma retrospectiva saudável de sua prática e constatar como foi feliz em seu casamento!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Luto

Dia de visita domiciliar. No itinerário, dona Esmeralda*, uma senhora de 53 anos. Há exatamente 2 meses, sua filha Carmen*, de 19 anos, morreu de forma repentina após um quadro febril associado a intensa cefaléia. Desde então, Esmeralda passava os dias triste, chorando, sem se alimentar. Não mais saía de casa nem se interessava por mais nada que ultrapassasse a soleira de sua porta.

Uma semana antes da visita, a irmã de Esmeralda, recém chegada de São Paulo, foi ao meu consultório com o único objetivo de solicitar uma visita à irmã. Chegou mesmo a propor uma remuneração para tal. Após os devidos esclarecimentos sobre os procedimentos para agendar uma visita, inclusive da não necessidade de honorários, firmei compromisso e hoje saí para cumpri-lo.

Mas o que dizer a uma mãe que perdeu uma filha dessa maneira? A faculdade, os livros, nada ensina. A vida pode empregar suas lições, mas o que teria consolidado em médico recém-formado? Mergulhei em busca de esclarecimentos nas diversas publicações sobre o tema e a única resposta encontrada foi: uma dor que nunca passa. Nada substitui a vida perdida de um filho. Crescemos na certeza de que um dia não teremos os avós e pais por perto. Contudo ninguém está preparado para a brutal quebra de um elo como a morte de um filho. Esse não é o caminho natural. Extrapolando, é a subversão da natureza.

Frustrado pela constante negativa em minhas pesquisas, levei comigo a única saída que me restava, a honestidade. Cheguei à casa de dona Esmeralda por volta das 16h e lá permaneci por quase uma hora. Perguntei como ela se sentia, revelei o motivo de ter ido lá, incluindo o pedido da irmã, e disse que não sabia o que dizer naquela hora. Fui sincero por que vi uma mãe em pedaços. Escutei com atenção seus relatos sobre o dia fatídico, perguntei como era sua filha e conversamos brevemente sobre os últimos dias. Por fim, conclui pedindo para que Esmeralda desse um passo a mais a cada dia.

Retornar a rotina pode ser algo impossível, mas a vida continua. O vazio vai ficar lá e andar pode ser a única maneira de mantê-lo num nível minimamente aceitável. Despedi-me acertando novo compromisso de revê-la em breve, com a certeza de que talvez em nada tenha alterado o sofrimento daquela mãe, mas de alguma forma, tenha implantado a semente de dias menos escuros porvir.

*Nome alterado para preservar a identidade.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cajueiro

O Cajueiro é uma das experiências mais interessantes e, em níveis quase intoleráveis, estressantes, dessa minha passagem por Guaribas. Trata-se de um povoado situado a cerca de 30 km da sede do município, contudo exige uma viagem de no mínimo uma hora e meia, passando apenas por estradas carroçais em que apenas carros de motor forte passam. É uma região pobre, com moradores em sua maioria analfabetos e mocinhas gestantes.


Chama atenção também devido a maioria dos casais serem consangüíneos. Isolados deste jeito, não seria absurdo casarem-se com primos de 1º ou 2º grau. Tal fato fica bem evidenciado pela escassez de sobrenomes. Diversidade é a chave, já dizia Darwin, mas nesse caso, a falta dela é a perdição. Fiquei impressionado com a quantidade de moradores com distúrbios neuropsiquiátricos, variando da epilepsia, passando por déficits mentais até suicidas!


Num domingo antes da segunda viagem ao Cajueiro, conheci uma senhora de 48 anos que chegou até mim implorando por um atestado médico para se aposentar. Na verdade a conheci inconsciente, já que tinha acessos de síncope motivados por fortes emoções. Os parentes a trouxeram já com um diagnóstico obscuro de epilepsia e mostrando medicações que em nada ajudariam caso fosse verdade. Pedi que se acalmassem, esperei a senhora se recuperar e solicitei que a levassem até o consultório neste dia. Então ela veio!


Assim que o carro chegou à unidade de saúde do Cajueiro, ela desmaiou novamente. Seu pai, um senhor nervoso, veio correndo até mim para que a atendesse de prontidão, desprezando os outros pacientes que já me aguardavam desde cedo. Fui até a mulher inconsciente e, assegurado de que logo estaria acordada, comecei as consultas respeitando a ordem de chegada. Uma hora se passou até que ela adentrasse meu consultório. Saí detrás da mesa, sentei ao seu lado e conversamos.


Dona Clotilde* tinha uma face muito abatida, como se tivesse passado por muitas tragédias ao longo da vida, o que logo se mostrou verdade através de seus relatos. Sempre que perguntava sobre algum fato passado, ela prontamente negava lembrar-se, contudo, com um pouco de paciência, sua história foi se revelando. Sentia uma tristeza profunda em decorrência da morte de 2 irmãos, que lhe eram muito próximos. Não se recuperara do luto e passou a ter alucinações auditivas e insônia. Quando a angústia chegava ao limite, o que já acontecia freqüentemente, desmaiava.


Conversamos por um longo tempo, para irritação dos outros pacientes que esperavam no lado de fora. Troquei uma das medicações das quais fazia uso e adicionei outra para completar o tratamento farmacológico. Despedi-me de dona Clotilde e a deixei a vontade para me procurar novamente caso precisasse. Um mês se passou para que voltasse a vê-la. Já não era a mesma mulher que encontrara desmaiada semanas atrás. Já assumia uma postura mais confiante, não perdia mais a consciência e não chorava mais como antes. Sorria com certa desenvoltura e seu discurso já era preenchido com palavras mais alegres.


As drogas que prescrevi certamente tiveram seu quinhão neste sucesso. Entretanto dedico a vitória deste caso as palavras de um dos meus mais estimados mestres, o padre e psiquiatra Rino. Dentre suas maravilhosas lições, a capacidade de ouvir o que os pacientes tem a dizer foi uma das mais valiosas para o exercício desta profissão. O diálogo é a base para compreensão, e deveríamos zelar por sua adoção em todos os aspectos de nossas vidas.


Por fim, são casos como esses que fazem tudo valer a pena. Quando acordo as quintas-feiras e me deparo com a entediante viagem ao Cajueiro, procuro lembrar-me de dona Clotilde. Um novo sorriso que consegui garimpar num lugar tão abandonado. Se conseguir extrair mais um da próxima vez, estarei cumprindo meu papel de tornar este mundo um lugar um pouquinho melhor de se viver.

*Nome alterado para preservar a identidade.

sábado, 30 de abril de 2011

Vida Nova ou Ignorância

Estas são as primeiras palavras que escrevo em meses. Durante este período de ostracismo, revoluções ocorreram na minha vida. Pela primeira vez, após mais de 20 anos, deixei de ser estudante profissional. Deixei minha casa e resido a mais de 1000 Km de meus pais, em uma simpática cidadezinha no interior do Piauí, meu querido estado natal.


Larguei as letras por que não me julgava merecedor delas. Iniciei um blog para ajudar a escrever meu primeiro livro e estanquei! Exprimi o que podia e nem uma sílaba caiu sobre estas teclas. Então resolvi abandonar temporariamente este ofício e me dedicar a minha nova profissão. Fui graduado em dezembro de 2010 e logo tive a oportunidade de retornar ao Piauí. Um mês se passou entre propostas, CRM, sindicato e cá estou eu, médico do município de Guaribas.


A chegada já foi um tanto impactante. São 12 horas de viagem até a cidade mais próxima, chamada Caracol, e depois mais 1h30min de viagem em estradas de pedra, areia e lama. Nacionalmente famosa pela implantação pioneira do programa Fome-Zero do governo federal, Guaribas acomoda cerca de 4 mil habitantes, distribuídos entre a sede e outros povoados, por vezes bem distantes e de difícil acesso.


Sua população é bastante peculiar, formada por apenas algumas famílias, já denotando alguns dos problemas de saúde que enfrentaria por aqui. São bem acolhedores e simpáticos em sua maioria. Os mais velhos são quase todos analfabetos ou tem baixíssima escolaridade. Os mais novos contam com uma excelente unidade de ensino de tempo integral, alcançando boas colocações no último Enem. Estava traçado o perfil das pessoas que encontraria por aqui. Agora faltava colocar a mão na massa e trabalhar!


No princípio, era governado pela insegurança! Conhecia o conteúdo, mas estava alheio ao impacto causado pelas minhas condutas. O carimbo e as decisões agora me pertenciam, então a responsabilidade foi aumentada exponencialmente. Antes, na faculdade, raramente tinha a oportunidade de rever os pacientes ambulatoriais. Hoje isso é uma constante! Pior, os pacientes agora são meus vizinhos e colegas.


Cheguei impregnado de incertezas e empolgação. Há sete dias venho praticando a boa e velha medicina que aprendi durante os últimos 6 anos. Uma semana na qual passava as noites  em claro, temendo fazer alguma bobagem dantesca. Acordava com os livros e dormia sob sua guarda. Durante o serviço, tentava de todas as formas manter um tom de voz firme para não demonstrar a enorme insegurança que me assolava. Mas fui levando e aos poucos, conquistei certo domínio sobre minhas ações.


Hoje faço uma avaliação retrospectiva. Não minha, pois ainda não tive tempo de contemplar minha prática, mas uma avaliação da maioria dos acontecimentos que se passaram em meu consultório esta semana.


Ignorância! Uma das palavras mais feias que existe, tanto pelo seu significado quanto pelas pessoas a quem ela se aplica. Neste caso, estaria falando de uma grande parcela da população mundial (quem sabe não estou incluído nesta conta!). Somos ignorantes quando desconhecemos algo, quando tratamos alguém/algo de forma rude e quando nos negamos ser esclarecidos!


Ignorância! Meu amigo Chico Iure falou de forma esclarecida quando afirmou que preferia ficar na capital, onde as pessoas entendem o que ele fala. É muito deprimente falar com o paciente, mesmo no linguajar mais básico possível, e receber o silêncio como resposta, pela simples incapacidade dele em compreender o português. Infelizmente, essa é um constante nestas bandas. O povo carece de cultura. Moldados a sol e enxada, sucumbem nas artimanhas da língua.


Ignorância! Foram por anos impedidos de usufruir de seus direitos. Foi com muita comoção que ouvi uma das pacientes reclamar de minha demora durante as consultas. Ela afirmava que apenas consultas particulares deveriam demorar tanto. No serviço público, deveria ser o mais breve possível.


Ignorância, a palavra de hoje! Agora me invisto de autoridade para qualificar de estúpido um médico que se serve da assistência pública para propagar tal idéia. Atender 500 pacientes numa manhã é uma falta de respeito (e canalhice) sem tamanho. Justificar tal prática sob o argumento de que é público torna a afirmação mais absurda ainda.


Ignorância, minha palavra preferida nestes tempos! Talvez seja bem empregada em meu estado de espírito atual. Contudo, posso garantir que é apenas um estágio inicial, de onde todos partimos. Um ano dedicado ao conhecimento e, quem sabe nesta tônica, eu me afaste deste estado impróprio e me aproxime um pouquinho mais de seu oposto.