quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dor de Cabeça

Durante a faculdade, aprendemos a fazer perguntas! Refletindo um pouquinho sobre o assunto, acredito que aprender a fazer perguntas é a base para o conhecimento. Perguntamos e procuramos pelas respostas. Reunimos tudo numa sacola, acessamos os recônditos de nossas memórias, misturamos com a (curta!) experiência, associamos fatos e pronto: diagnóstico. Até aí tudo bem!

Um paciente chega com dor de cabeça. Automaticamente, listamos um conjunto de indagações próprias da semiótica para cefaléia. Idade? Sexo? Profissão? Dói onde? Há quanto tempo? Freqüência? Intensidade? Prôdromos? O que melhora? O que piora? Alguma outra queixa relacionada? Destas perguntas extraímos o material necessário para o diagnóstico diferencial, passando por estresse, infecção, enxaqueca, câncer, dentre outros. Um exame físico mais minucioso e o espectro de doenças se estreita. Alguns exames complementares e fechamos. Tratamento, bom dia e tchau.

Esse seria o roteiro perfeito para uma consulta, com desfecho agradável e felicidade para ambos os lados. Mas a realidade é diferente e infelizmente, existem mil causas diferentes de dor de cabeça. A pior delas, acredito, é a que nos assolou recentemente, causada pela histeria da população. Explico!

Carol*, 19 anos, chega à unidade de saúde se queixando de febre e dor de cabeça muito forte. Medicada, melhora substancialmente e volta para casa. No dia seguinte, morre. Cesar*, 33 anos, inicia um quadro súbito de dor de cabeça após libação alcoólica. Avaliação primordial mostra apenas cefaléia de provável ressaca. Medicado, pouco alívio. Encaminhado a um hospital de emergência, reencaminhado a um serviço terciário, morre 20 dias depois.

Nos dias seguintes, uma avalanche de pacientes reclamando de dor de cabeça invade a unidade de saúde. Uma luta infernal para ser consultado. Lista na mão: idade, sexo, profissão, onde, quando... Ao final do dia, muito analgésico depois, a dor de cabeça é a minha. Lista na mão! Homem de 26 anos, médico do PSF, cefaléia fronto-temporal, de início recente (há poucas horas), de leve/média intensidade, sem prôdromos, sem fotofobia, agravada pelas queixas de cefaléia infundadas e com melhora após um pouco de silêncio, paracetamol e um banho! Ausência de outras queixas. Ao exame, bom estado geral, sem qualquer achado relevante. Diagnóstico?

O assombro populacional após duas mortes relacionadas à cefaléia gerou uma histeria. Antes todos tinham dores de cabeças ocasionadas por consumo exagerado de café, álcool, trabalho extenuante, condições difíceis de vida... É claro que sofriam, mas tinham suas medidas para saná-las. De repente, sua dor de cabeça tornou-se uma ameaça insuportável. Ninguém parou para contemplar os fatos. Empiricamente, associaram: dor de cabeça igual à morte. Eliminaram da equação todo o resto!

Carol fora passear em outro município assolado por inúmeros casos de dengue. Apresentou febre e outros sintomas típicos da doença. Desenvolveu um quadro de choque hemorrágico da dengue e morreu. Estava ausente da cidade e não pude avaliá-la quando procurou o serviço de saúde. Cesar era epiléptico, recém-operado de estreitamento de esôfago de causa obscura, negava quaisquer das doenças, bebia sem moderação e morreu de acidente vascular maciço após quadro de encefalite viral.

Duas exceções que resolveram se passar num minúsculo município, de habitantes em sua maioria analfabetos ou de baixíssima escolaridade, pouco esclarecidos em qualquer assunto que ultrapasse as fronteiras da cidade. Em outras palavras, não souberam fazer os questionamentos necessários para perceber quão extraordinária era aquela situação. Por outro lado, a faculdade ensina a fazer perguntas de certo modo dirigidas a uma única pessoa, mas somente a prática ensina a lidar com as conseqüências das respostas, ainda mais quando vem de diferentes fontes. Coletar e associar! 

* Nomes alterados para preservar a identidade.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

José e as Correntes

Estes são os relatos dos três desfechos de uma mesma história.



Eram três Josés*, todos filhos da cidade, mesma faixa etária, habitantes da zona rural, família grande. Também compartilhavam do mesmo problema. Ainda na infância começaram a apresentar um comportamento estranho, isolando-se, afirmando ver/ouvir coisas, perdendo-se de casa todas as vezes que saiam num passeio desnorteado, incapazes de conviver entre os pares. Os três compartilharam do mesmo desenvolvimento. Cresceram com crises de violência, perda da capacidade de comunicação, insones e, para família, malucos. Os três compartilharam do mesmo tratamento. Foram condenados a viver em celas imundas, dormindo e fazendo suas necessidades no chão, presos com grossas correntes pelo tornozelo por um crime que nunca cometeram.

Então os trilhos de suas vidas se separaram.

Há alguns anos, em virtude de toda a campanha do Fome-Zero do Governo Federal, os olhos do Estado finalmente se voltaram para este bolsão de pobreza, trazendo consigo todo um aparato de técnicos das mais diversas áreas para desenvolver e mudar a região. Os profissionais de saúde que aqui trabalhavam, e aqui destaco o mérito da coordenadora de saúde Idvani e sua equipe, empenharam-se em mudar o paradigma dos Josés, resgatando-os de suas prisões e finalmente oferecendo-lhes a oportunidade de serem avaliados no Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) de uma cidade vizinha.

Suas situações foram estudadas e cada um foi devidamente medicado, propondo o nascimento de um novo sol em suas vidas. Contudo a história não terminou tão bela para todos.

O primeiro José, um rapaz de tez morena, franzino, retornou para casa e foi recebido de braços abertos pela família. Suas correntes foram rompidas e agora era permitido e convidado a transitar por sua comunidade. Tive a oportunidade de vê-lo andando de bicicleta pelas ruas e, depois, bem vestido, de terno e gravata, indo ao culto de sua igreja. Quando visitei sua casa, fui recebido com um aperto de mão alegre e caloroso. A felicidade de sua mãe ao comentar os avanços no tratamento transbordava de seu sorriso.

O segundo José, gordinho e de pele alva, também abandonou seus grilhões. Talvez fosse o que tivesse pior passado dos três. Sua cela era afastada da casa e o tratamento que recebia não seria dispensado a um cão. Medicado, não foi recebido em casa. Tinham medo dele. A solução foi levá-lo para uma instituição na capital Teresina, onde hoje vive, feliz e alheio ao desprezo da própria família. Este não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, mas pude vê-lo por fotos, em seu aniversário, alegre. Tampouco conheci sua família.

Quanto ao último José, conversando com os profissionais que o levaram para São Raimundo Nonato, era encantador escutar os relatos de sua felicidade dentro do carro. Dançava inquieto as músicas que o motorista colocava no rádio. Sua primeira experiência com sorvete foi hilária, devorando um atrás do outro, como me contaram as testemunhas. Foi avaliado pelo psiquiatra e medicado. Retornou para casa na esperança de se livrar das correntes e ser reincorporado por sua comunidade.

Um ano se passou e fui visitá-lo pela primeira vez. Lá estava ele, num quarto dos fundos da casa, sem móveis, apenas uma janela que dava para o poente. No chão, um imenso quebra-cabeça montado de EVA fazia às vezes de tapete. Várias cobertas espalhadas pelo chão e José abaixo delas. Percebi no canto um balde sujo e o cheiro forte de urina. Sua mãe lhe chamou pelo nome e ele se levantou, apenas de calção. Era longilíneo, barbudo, magricela. Percorri com os olhos todo o seu corpo até que me deparei com seu tornozelo, enfeitado com uma volta de grossa corrente, presa com cadeado, e que corria até a parede, desaparecendo por um buraco.

Conversando com a enfermeira da área, fiquei sabendo que todas as tentativas de medicação de José esbarravam na atitude da família, que não parecia interessada em sua recuperação. Nunca deixavam faltar os benzodiazepínicos, pois o faziam dormir. Mas as drogas que o resgatariam deixavam de dar, ou mesmo faltar. O sono traz uma morte aparente, situação confortável para eles.

Agora, desprovido da presença do Estado, com o fim dos esforços do Fome-Zero, distantes do período eleitoral, o desafio de resgatar nosso José tornou-se uma tarefa difícil. Reunimos enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e iniciamos uma nova campanha. Contudo, o maior desafio será convencer a família, agente indispensável para a recuperação de nosso prisioneiro.

Estes são fatos que se repetem aos milhares pelo interior e até mesmo nas grandes cidades do Brasil. A carência de serviços e profissionais preparados para lidar com o paciente mental revelam a fragilidade do nosso sistema de saúde e das políticas voltadas para o problema. Mas com perseverança e estudo, vamos aos poucos tentar mudar este triste quadro.


* Nomes modificados para preservar as identidades.

sábado, 19 de novembro de 2011

Eu, a TV e seu Irandir


O intelectual e desertor da medicina Apparício Torelli, mais conhecido como Barão de Itararé, emprestou-me essas palavras: a televisão é uma das maravilhas da ciência da humanidade a serviço da imbecilidade humana. É claro que concordei! Quem se presta a conferir as atrações das principais emissoras deste país não encontrará nada melhor que novelas absurdas, programas de auditório tolos e sangue. Nossa persistência em frente a telinha ainda nos premia com algumas partidas de futebol ou um filme minimamente decente.
            
Mas como sinto falta!

A televisão emburrece, contudo pode ser um veículo primoroso de educação. Canais fechados como Discovery, National Geografic, A&E entre outros sempre trazem bons documentários, mostrando passado, presente e tendências futuras nas diferentes áreas de pesquisa. Mas essa é uma realidade que não me pertence mais. Estou isolado no sertão nordestino, convivendo com uma TV que só pega estática e, às vezes, a rede do bispo. Crueldade!

O lado bom? Tempo! Se a TV emburrece, a sua falta me forneceu muito tempo para me dedicar aos livros, dar passeios, conversar com vizinhos e outras...! Plena quarta-feira de cinzas e não faço ideia de quem venceu o carnaval, quem ganhou nos campeonatos estaduais ou o que se passa no mundo! Se por acaso ele acabar, por favor, alguém mande me avisar!

***

Como toda cidade do interior, Guaribas guarda suas figuras excêntricas. Conversando com vizinhos ou tomando relatos pessoalmente, conheci algumas histórias dignas das melhores comédias. O seu Irandir*, por exemplo: magrinho, 62 anos, fumante inveterado de cigarro de palha. Anda sempre em companhia de sua cadela, a qual negou um nome, mas que sempre segue seus passos e faz questão de avisar quando é hora de voltar pra casa.

Conversando com a turma em frente de casa, ele relatou um dos acontecimentos mais bizarros que já ouvi! Com a fala rouca e os olhos trocados (vesgo que só ele!), puxou uma folha de caderno do bolso para confeccionar um novo cigarro enquanto proseava. Contou que na sua juventude, viu todos os seus amigos se casando e decidiu que faria o mesmo. Arranjou uma mocinha e casou de prontidão. Semanas se passaram e resolveu confidenciar para um colega:

            - Olha que não entendi esse gosto de casar de vocês. Casei também e não vi vantagem ainda!
            Seu colega, sobressaltado, indagou:
            - Oh! Oh! Oh! A gente casa é pra "usar" a mulher! Câ tá é atrapalhado! Cê já "usou" a sua?
            Ingênuo, seu Irandir tomou um susto!
            - Vixe Maria! Usar pra quê, tolo?

Neste instante, quase não suportei de tanto rir! Seu Irandir prosseguiu com a história, dizendo que seu colega o ensinou passo-a-passo como devia fazer com sua mulher. Desde então, entendeu finalmente o porquê de casar! Aí sua cadela latiu e os dois tomaram o rumo de casa.

*Nome alterado para preservar a identidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sabedoria


Desde que tomei um olhar crítico sobre mim mesmo (belas palavras colhidas do filme Meu Nome não é Johnny, 2008, mas de autoria da escritora belga Marguerite Yourcenar), tenho de certa forma tentado trilhar um caminho que me leve a sabedoria! Encontrar o caminho do meio, como fez Sidarta milênios atrás me pareceu uma bela justificativa para esses anos que passamos sobre a superfície deste singelo planeta. Qualquer outra explicação para o sentido de nossa existência foi prontamente negado, a não ser que alguém encontre a pergunta certa cuja resposta é 42. Aí talvez as coisas mudassem, mas até lá, caminho do meio.

A primeira tarefa seria me despojar dos pecados capitais, entre eles o pior, a vaidade, mas deixemos esse assunto para outro texto. O segundo passo seria descobrir o que faz de um homem uma pessoa sábia. Empolgado, corri atrás de conselhos e textos destes ilustres e fiquei assombrado com o que encontrei: silêncio!

Como poderia o mutismo ser a resposta para minhas angústias? Mas está lá e os antigos já sabiam. O silêncio é a virtude que nos evita falar ou ouvir tolices. Bom provérbio para começar! A regra número um seria conservar as palavras bem guardadas. Palavra é flecha lançada. Jamais volta! Ano passado, cometi uma injustiça contra uma colega, comentando levianamente que ela teria fraudado um concurso. Já a conhecia há 6 anos e sabia de antemão que a garota não seria capaz de cometer um ato tão absurdo. O certo é que me arrependo amargamente de tal fato e ainda me envergonho do acontecido.

Muitas vezes se diz melhor calando que falando em demasia. A fofoca nasceu de uma série de acontecimentos que me levaram a julgar precipitadamente. Conversei com 3 ou 4 pessoas sobre isso e esqueci. Meses depois, a garota me procurou e falou sobre o assunto. Um banho de água fria! Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Desculpei-me, mas ficarei marcado como tolo. Pessoas não abrem a boca para elogios, mas para depreciação. Por 6 anos comentei como a achava bela, inteligente, legal. Apenas as ofensas chegaram aos seus ouvidos.

Quando falares, cuida para que as palavras sejam melhores que o silêncio; Quantas vezes devemos errar para dar crédito a esses ensinamentos? Ford Prefect (O guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams) acreditava que os seres humanos falavam sem parar com a finalidade de evitar ouvir os próprios pensamentos. Tagarelar para esconder o quão vazio os são? Temos dois ouvidos e uma boca. Ouçamos mais e falemos menos.

Outro provérbio interessante fala assim: nascemos com olhos fechados e boca aberta; vivemos tentando consertar este erro da natureza. Acredito que este é um atributo dos sábios. Durante 2 semestres da faculdade, tivemos aula com o Dr. Rino, padre e psiquiatra, o qual persistiu para que compreendêssemos a importância de escutar o que os outros tem a dizer, não importando a origem do discurso: professor, colega ou paciente. De certa forma era um tanto triste notar uma ponta de frustração do mestre ao final de cada aula. Nossa cultura ocidental não tolera o mutismo e se afoga nas próprias palavras! A sabedoria vem de escutar; de falar, vem do arrependimento.

Os espartanos sustentaram uma sociedade que prezava as poucas palavras. Sábios, entediam que elas pouco valiam. Um grama de exemplos vale mais que toneladas de conselhos. Um ato que vale por mil palavras. Não sou partidário do mutismo total. Não teríamos abandonado as savanas, construído ferramentas e viajado ao espaço se negássemos este dom, mas tal habilidade é diariamente massacrada pelas ruas, rádios, TVs e outras mídias. A palavra é prata, o silêncio é ouro. Estamos nos perdendo por pouco!

Pega-se o touro pelos chifres; o homem pelas palavras. O complemento deste provérbio ainda diz: e a mulher pelo elogio; Arrisco a dizer que a vaidade nos leva facilmente a soltar a língua. Humildade é outro atributo dos sábios. Assunto polêmico! Não sou humilde. Não dá maneira que as pessoas acreditam ser humilde. Não diminuo minhas façanhas, não nego o que sei nem escondo sobre falsa simplicidade minhas proezas. Está certo que nunca fiz grande coisa (não é falsa humildade), mas planejo grandes coisas para minha vida. Sonho alto pra não esquecer meus sonhos! Aprendi que cada pessoa tem sua régua para medir seus atributos e ambições. O mais difícil seria entender que minha régua não se aplica a vida dos outros.

Duro caminho para sabedoria! Bem longe mesmo de alcançar. O mais interessante é que não vivemos para sermos apontados como sábios. Enquanto vivos, estamos propensos a cometer todos os erros possíveis. Somos pontuados pela dimensão dos erros! Viva o Ocidente! Temos que morrer para computar a fatura e só assim, sermos categorizados: comum, tolo, sábio. O homem comum fala, o sábio escuta e o tolo discute.

Tão importante quanto ouvir é criticar o que se ouve. Aí não seríamos sábios, mas tolos mudos! Da mesma forma, devemos estar preparados para falar a coisa certa na hora apropriada. Albert Einstein disse que o mundo não estava ameaçado pelas pessoas más, mas por aquelas que se calam diante das maldades. Diga a verdade e saia correndo. Antes acreditava que a sabedoria era uma qualidade da velhice e esta, um bônus da covardia. Antes um covarde vivo que um bravo morto. Os conselhos de anciões, ponderados, sábios das aldeias, não comportavam jovens, sempre tão impulsivos. Mas para ser um ancião, deveria ter sido um grande guerreiro! Os covardes ficavam pelo caminho. Daí então um novo atributo do sábio: bravura!

Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem. Mas o que realmente sabemos? A verdade é apenas a constatação de um fato. Não acrescenta valor. Silêncio, atenção, prudência, auto-crítica, humildade e bravura são os grandes atributos de um sábio. Também seriam as características ideais para qualquer ser humano, caso fôssemos afeitos a ensinar bons costumes aos nossos filhos.

Termino então assim: Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância. Quando olhamos através das lentes de microscópios ou de telescópios, nos deparamos com universos infinitamente minúsculos ou grandiosos, que superam nossas capacidades de compreensão. O que realmente sabemos? Vivemos colecionando informações apenas para constatar quão ignorantes somos. Daí, um sábio por fim poderia chegar à decepcionante conclusão de que não passa de um tolo!

Regra número um: calado!

sábado, 3 de setembro de 2011

Sobre Pais e Livros


Fyodor Pavlovich Karamazov era um crápula. Um beberrão inveterado, afeito a todas as práticas e vícios condenados em qualquer sociedade possível. Emergiu incólume de dois casamentos, nos quais deixou 3 filhos e mágoas profundas. Em sua magistral obra, Fyodor Dostoyevsky relata os abusos cometidos pelo bufão, esmiúça as personalidades intrigantes de seus filhos e tem como desfecho o parricídio e a procura pelo culpado dentro da família Karamazov.

Mas este texto não é sobre o livro, mas por que interrompi sua leitura pela terceira vez em 6 anos! Para ilustrar melhor, tomaremos um novo rumo.

Em 1927, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, lançou no ensaio Dostoievsky e o Parricídio as    primeiras impressões registradas na literatura sobre o comportamento masculino no complexo de Édipo. Para sustentar sua argumentação, apoiou-se sobre três grandes obras, a saber: Édipo Rei, de Sófocles; Hamlet, de William Shakespeare e claro, Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky.

O escritor grego relatou em sua tragédia o drama do rei homônimo que, cumprindo uma profecia antiga, assassina o pai e desposa a mãe. Ao tomar conhecimento da condição de marido da própria genitora, fura os olhos e parte pelo mundo como mendigo, a fim de espiar seus pecados.

Na outra obra, o dramaturgo inglês conta a história do príncipe da Dinamarca, Hamlet, que tem o pai assassinado pelo tio, o qual usurpa seu trono e toma sua mãe como rainha. O espectro do pai lhe aparece cobrando vingança, tarefa encarada com amargura pelo príncipe.

A perda do pai é a ação central das três obras. Entretanto, as intrigas geradas pelo ato são o verdadeiro motivo da excelência delas. Sófocles discorre sobre o tabu social do incesto, a culpa pela consumação do ato e as medidas desesperadas adotadas pelas personagens como punição. Shakespeare vai mais fundo mostrando a angústia de um filho frente ao enfrentamento do tio assassino. Por que Hamlet exita tanto em desferir o golpe fatal sobre o algoz de seu pai? A fúria com que cai sobre outros inimigos não é a mesma dedicada ao tio.

Já faz alguns anos que vivo um drama semelhante aos dos irmãos Karamazov. Cada vez que iniciei a leitura do livro, via estampada em suas páginas os sentimentos negativos cultivados pelo convívio conflituoso com meu próprio pai. Daí, não via outra solução senão fechar o livro e legar-lhe mais uma temporada de ostracismo em minha estante.

Admito que nem sempre vivemos de rugas. Houve uma época em que o considerava, como qualquer criança, meu herói. Contudo os anos passaram e com eles foi embora a venda que me impedia de enxergar a verdadeira figura de meu pai. Não obstante, perdi outras referências que usava como fortaleza e modelo a seguir. Da mesma forma, encontrei-me homem feito, irmão mais velho e protetor de minha família. Matei meu herói e lhe tomei a esposa. Quando dei por mim, encarnava o complexo de Édipo.

Os meses de distância permitiram que tomasse um olhar crítico a respeito de minhas atitudes e chegasse a essas conclusões, mesmo que imprecisas ou exageradas. Hoje assumo atitudes diferentes com relação ao convívio com meus pais. Entendi minha posição dentro da família, assim como minhas responsabilidades. Não fecho os olhos para o passado, entretanto tento ser mais cauteloso quanto ao futuro. Ainda não tive coragem de reabrir “Os Irmãos Karamazov”, mas pretendo um dia terminar sua leitura e encontrar novas respostas para esse dilema tão antigo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Curar sempre, aliviar quando puder, consolar quem?

“Curar quando puder, aliviar quase sempre, consolar sempre”. As sábias palavras de Hipócrates atravessaram milênios como exemplo da boa prática. Interessante como parecemos esquecer essas orações neste século. Avançamos a passos largos sobre inúmeras doenças cujo prognóstico reservado nos forçava buscar um alento ao paciente. Hoje temos a chave da cura de muitas moléstias, contudo ainda somos limitados pela nossa natureza humana de estreito espectro quanto a muitos aspectos da vida, especialmente quando se trata do término dela.

Nas aparências, a morte deixou de ser uma companheira natural das enfermarias e consultórios para se tornar um tabu. A tanatologia, estudo da morte, se desenvolveu nas últimas décadas, mas permanece confinada aos recônditos de nossas bibliotecas. A psiquiatra suíça Elisabeth Klüber-Ross descreveu em 1969, no livro “Sobre a Morte e o Morrer”, as várias etapas que atravessamos diante da perda ou do enfrentamento do próprio fim. Seriam estas, numa ordem uma tanto flexível, a negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação. Suas primeiras palavras foram “O que os doentes terminais têm a ensinar a médicos, enfermeiros, religiosos e aos próprios parentes”.

Neste ponto, volto dois anos atrás, quando ainda interno, na emergência do Hospital do Coração. Fui imerso num ambiente onde reinava a negação. A todo o momento, víamos alguém morrer, vítimas especialmente de infartos. O doente chegava, praticávamos as manobras de ressuscitação, anunciávamos a hora da morte e nos deslocávamos para as lanchonetes. Nada era discutido. Nossos pensamentos se voltavam para as partidas de futebol na TV, uma festa no fim-de-semana ou a próxima piada.

Meses depois, estava lotado na enfermaria de cardiologia do HUWC e fui encarregado de um paciente chamado José*. Era um simpático senhor de 69 anos, evangélico, animado e com uma família sempre presente, ladeando seu leito. Fora acometido por um câncer prostático e, durante tratamento, descompensou de uma insuficiência cardíaca até então desconhecida. Eu o conheci durante a cineangiocoronariografia. No laudo, várias lesões de tronco de coronária, tornando-o candidato a revascularização cirúrgica. Nos exames pré-cirúrgicos, uma ultrassonografia evidenciou múltiplas nodulações hepáticas sugestivas de metástases. Não podia operar o coração devido ao câncer e não podia tratar a próstata devido ao coração. Estava condenado. Relatório de alta e encaminhamento para manejo clínico paliativo. Morreu em fevereiro do ano seguinte.

Um ano se passou e estava encarregado de outra paciente na enfermaria cirúrgica. Dona Maria*, 43 anos, voltava para o “second look” após várias sessões de quimioterapia devido a um câncer de ovário. Durante operação, a cavidade abdominal fora revisada, destacando-se a ausência de câncer visível e possível cura. No pós-operatório, começou a apresentar febre, dispnéia e foi iniciado antibioticoterapia para infecção de sítio cirúrgico. Morreu de sepse 4 dias depois.

Em todas as situações descritas acima, eu era apenas um estudante. Minhas atribuições envolviam colher a história dos pacientes, executar um exame físico minucioso, avaliá-los diariamente, correr atrás de exames ou pareceres e estudar muito para discutir cada caso. Um dia era cardiopatia, noutro câncer, vasculites, pneumonias, AIDS, enfim, uma gama de morbidades que por vezes guardavam entre si apenas o desfecho: a morte. Mas a impressão que sempre ficava era a negação deste fato. Como lidar com a morte? Enquanto outros jovens estudavam direito, engenharia ou letras, estávamos lá, lutando contra a morte. Obviamente, havia aqueles internos que alcançavam os demais estágios descritos por Klüber-Ross, mas muitos permaneciam negando.

O tabu permanece. Derrotas são inaceitáveis neste mundo novo, onde apenas o sucesso é permitido. Falhas devem ser ignoradas e esquecidas. Erramos todos os dias negando que a morte deve ser vencida a qualquer custo e pecamos ainda mais quando não trazemos esta discussão para os novos médicos que se formam nos hospitais universitários deste país. A cada turma formada, perpetuamos a ignorância quanto ao fato monumental que recai sobre nossos ombros. Saímos em muitos aspectos imaturos quanto aos desafios de nossa prática. O campo de trabalho por vezes nos dará as lições erradas e até mesmo aprenderemos, contudo da maneira mais difícil.

Nos casos descritos, não houve cura. De certa forma, nosso empenho fora premiado com o alívio do sofrimento. Entretanto, a máxima do consolo, esta talvez também devesse ser dirigida também a nós, estudantes.

* Nomes alterados para preservar as identidades.

domingo, 3 de julho de 2011

Casamento

O ócio perturbador me arrasta por devaneios insanos, fazendo-me chegar a conclusões espúrias sobre coisas sem sentido e tudo o mais! Entendeu?

Tenho muito tempo livre. Preencho com várias atividades e sobra tempo, então penso. Esse é o problema! Na maioria das vezes são pensamentos rápidos, sem importância. Outras vezes, levo horas matutando coisas grandes, também sem importância, mas que chegam a algum ponto maluco e, por ventura, a estas linhas. Aqui vai um deles!

A prática da medicina é como um casamento (palavras de um inexperiente). O noivo é o médico (sem chauvinismo, juro!). A noiva, obviamente, é o paciente. É um casamento que pode vir de forma natural, o amor pela profissão, ou mesmo arranjado, pelos pais do noivo, é claro. Há até os casamentos forçados! Terminada a cerimônia, o grande baile, cada um vai pra casa cuidar de seu matrimônio. O consultório é o quarto (ou a cozinha, cada um com suas manias). É lá que o relacionamento se desenvolve, cresce, amadurece e, por vezes, acaba.

Como todo relacionamento, ele é baseado no diálogo! Se houver uma boa dinâmica, ele flui perfeitamente para o deleite de ambas as partes. Quando pouco, termina de maneira muitas vezes dolorosa (voltaren® ou benzetacil®). Para que dê certo, tem que saber as procedências, se a idade é compatível, algumas coisas do passado, conhecer a família, onde mora, se gosta de bichos, se tem filhos. Passado tudo isso, chegamos ao clímax! O exame físico. Quando bem executado, tira-se grande proveito e agrada as duas partes.

Não existe casamento igual. Em alguns o diálogo não existe, apenas ação. Em outros, falta ação! Há aqueles baseados na aparência, os unicamente registrados por imagens, os que te botam pra dormir e aqueles que só querem teu sangue! Também existem as falhas. O que dizer de um casamento baseado em mentiras? Há médicos que prometem tratamentos miraculosos, assim como pacientes que inventam doenças mirabolantes. Resultado disso, fracasso a vista.

Terminado o processo, havendo honestidade e dedicação, os frutos do casamento são doces e vistosos! Por fim, lá no finalzinho, um bom médico pode fazer uma retrospectiva saudável de sua prática e constatar como foi feliz em seu casamento!