quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Koro


A rotina do atendimento ambulatorial por vezes é maçante. Passamos o dia atendendo pacientes com problemas de pressão arterial, diabetes, crianças resfriadas e as muitas queixas de dor, desde as cefaleias até aquelas dores fantasmas misteriosas que ninguém explica, mas que muitas vezes passam com uma boa conversa e uma cartela de paracetamol.

Mas a vida guarda suas surpresas! Então, numa bela manhã de quarta-feira, entra o seu Valdir* no meu consultório. Paciente habitual, pouco mais de 60 anos, faz acompanhamento por hipertensão arterial, com boa resposta às medicações. Está em companhia da filha, que traz consigo uma sacola cheia de caixas de remédios. Enquanto converso com seu Valdir, sua filha fica me dando orientações sobre conselhos a serem dados ao próprio pai, transformando a consulta numa babel desenfreada.

Após um breve esclarecimento a respeito do papel de cada um dentro daquela sala, ânimos acalmados, vejo que seu Valdir está muito incomodado com algo. Então peço a ele que esclareça. Um tanto acanhado, pede à filha que saia do consultório, pois queria falar em particular comigo.

Resoluta, a mulher deixou a sala. Assim que a porta foi trancada, seu Valdir me encarou de olhos arregalados. Com uma expressão assustada, falou:

- Doutor, meu pau tá sumindo!

Quem está preparado para tal confissão? Na verdade, quem já foi agraciado com tal revelação a respeito de um órgão tão íntimo? Fiquei por um momento sem palavras, mas tentei organizar meu pensamento para esclarecer aquela queixa tão bizarra. Então lembrei algo que havia lido há algum tempo.

Em 1967, uma histeria generalizada espalhou-se entre os homens de Cingapura. Centenas correram aos hospitais apresentando as mesmas queixas: o pênis estava sumindo. A causa: consumo de carne de porco vacinado contra gripe suína. Após o relato de que um dos porcos havia morrido com retração peniana, a moléstia se espalhou – e era altamente contagiosa. O tal transtorno, batizado de Koro, causava grande ansiedade, impotência e alguns dos acometidos acreditavam que morreriam assim que o pênis desaparecesse completamente. O mais intrigante era que não havia mudança alguma no comprimento do falo quando acompanhados (quem fez as medidas?).

Outros países na Europa, África e na Ásia também sofreram seus surtos de Koro. Apesar dos sintomas serem os mesmos, as causas variavam conforme os costumes locais: feitiçaria, desonra aos ancestrais, masturbação...

Seu Valdir disse que notou o encolhimento do seu órgão há varias semanas, inclusive fazendo questão que eu olhasse e desse minha opinião. Também reclamou de impotência sexual e que, por vezes, apresentava problemas ao urinar. A primeira coisa que veio a minha cabeça foi exatamente um distúrbio psicológico como o Koro, mas não podia fechar os olhos para outros diagnósticos, como uma disfunção erétil típica da idade (o que era, de fato) ou a doença de Peyrone, que também causa encolhimento peniano, curvatura anormal e pode evoluir com impotência.

Infelizmente, não dispunha de conhecimento especializado. De certa forma, tentei tranquilizar seu Valdir quanto à dimensão do seu problema e indiquei que procurasse um urologista para uma avaliação mais acurada do seu caso. Seu Valdir deixou meu consultório mais aliviado. Quanto a mim, rotina quebrada de maneira tão inusitada, torci para que o dia transcorresse com os pacientes habituais: hipertensos, diabéticos, gripados...

* Nome alterado para preservar a identidade.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A caatinga e o Caatingueiro

Era mais uma tarde quente de outubro. O sol se inclinava no horizonte, despejando toda sua glória sobre os sertões nordestinos. À minha frente, apenas a estrada de terra e um futuro não desenhado. Para trás, deixava dois anos de vida e uma história.

Emoldurando esse quadro, a Caatinga.

Ainda estudante, guardava um grande preconceito quanto a esse bioma. Era ignorante. Nasci na caatinga e lhe neguei o feito. Desdenhava de suas matas secas, de sua aridez. Contudo, convivendo nesse habitat, passei a conhecê-lo. Digo mais, passei a admirá-lo. Vivendo em seus domínios, pude admirar sua beleza e respeitar sua importância. Da mesma forma, também pude conhecer o sertanejo, esse indivíduo que sobrevive em condições extremas e que tem como recompensa nosso desdém pseudocivilizado.

Lembrei Euclides da Cunha, que nos últimos anos do século XIX foi designado a acompanhar a Guerra de Canudos no sertão da Bahia. Voltando do conflito, publicou o livro Os Sertões em que descrevia o cenário, os habitantes e o andamento da guerra – A Terra, O Homem e A Luta. Quero me ater aos dois primeiros tomos do livro.

Escrevendo numa linguagem hermética, caprichada de termos técnicos mesclados a neologismos, Euclides pinta um quadro do sertanejo e seu lar com profundo tom determinista e generosas doses de racismo. Até hoje observamos a influência de suas palavras quando assistimos aos repetidos episódios de ataques a nordestinos, seja nas ruas ou em redes sociais.

Eis as palavras imortais de Euclides sobre o homem: O sertanejo é, antes de tudo, um forte.

Essa oração diz tudo sobre o homem que vive na caatinga. De certa maneira ele se confunde com a vegetação, feia, tortuosa, dura, espinhosa. Mas traz em seu âmago um poder transformador inigualável, uma fé inabalável, uma energia imensurável. Pouco afeito as palavras, passa por rude. Não tem os modos que criamos para parecermos melhores. Escondem as mãos sujas e calejadas do trabalho. Desculpam-se por não ter roupas melhores ou por não oferecer algo melhor que água – seu bem mais precioso.

Então se transmutam. Vestem o gibão de couro e tornam-se heróis, desbravando a mata intrincada atrás de uma rês perdida. Suportam horas de sol quente nas costas para arar a terra e dela tirar seu sustento.

Seu lar é tão surpreendente quanto. Uma vastidão marcada por áreas de chapadas, depressões e elevações. A vegetação xerófila inclui desde gramíneas, arbustos e árvores. O mandacaru e o xique-xique são elementos comuns em sua paisagem. O solo varia do cascalho ao arenoso. Sua fauna é rica e desconfiada. Vive a espreita da onça pintada e do caçador. Por vezes, são vítimas do fogo, que se espalha como o vento por suas paragens. Alguns pontos convivem com seca intensa enquanto outras são intermitentemente abençoadas com chuvas. Euclides observou na época que a caatinga sofria com grandes temporadas de seca em períodos cíclicos de 9 a 12 anos que podiam ser recontados desde o século XVIII.

Apesar de todo o sofrimento trazido pela estiagem, fui agraciado com o incrível espetáculo de cores proporcionado pela natureza. As plantas verdinhas, ao longo dos meses, foram mudando seus matizes, trocando seus trajes verdejantes por cores quentes. Logo suas folhas irradiavam um amarelo que aos poucos encandeceu num vermelho vivo. No mesmo período, a incapacidade de sustentar tantas folhas com o escasso alimento fornecido pela terra fazia com que elas fossem liberadas e forrassem o chão, tornando a mata num cemitério de caules brancos (caa = mata; tinga = branca; do tupi).

Esse fenômeno se repete periodicamente e ilustra de maneira soberba o ciclo da vida e a importância da água nessa região. Basta caírem as primeiras gotas de chuva e a mata recupera seu manto esmeralda.

Da janela do carro, tentava ver o mais adentro da mata o possível. Tarefa absurda. Mesmo desprovida de folhas, a vegetação é intrincada, hermética como as palavras de Euclides. Não se conhece a caatinga por palavras. As verdadeiras ainda não existem para descrevê-la. Tampouco se conhece um sertanejo por livros. Apenas a convivência permite.

Deixo meus sertões modificado, um pouco mais calejado, a pele mais dura. Volto para casa maravilhado e saudoso com o que vivi. Uma experiência única, que humildemente tentei transformar em palavras.

sábado, 27 de outubro de 2012

A Famigerada

Era uma manhã ensolarada como as outras. A breve caminhada até o posto de saúde custava algumas gotas de suor apenas em virtude do calor, pois pouco mais de 400 metros separavam minha casa do trabalho. A cada três passos declarava um bom dia aos vários vizinhos, sentados nas calçadas, e errantes que partilhavam do meu caminho.

Já ganhava a primeira metade da trilha quando fui abordado pelo seu Josué*. Um senhor de pele escura, grossa, típica de quem ganha a vida na roça. Já contava mais de 60 anos, mas ainda conservava disposição para dar um pique até me alcançar.

- Doutor, está indo pro hospital? – perguntou assim que pareou comigo. Após minha afirmativa, prosseguiu falando – Sabe o que é, doutor? É que eu queria que você fizesse uma receita de benzetacil pra eu tomar mais tarde.

Intrigado com aquilo, perguntei o motivo pelo qual ele queria tomar aquela medicação em particular. Sua resposta foi mais curiosa ainda. Seu Josué disse que sempre que podia tomava uma injeção de benzetacil, desde que era novo. Os motivos, os mais variados! Quando sentia febre; quando tomava um susto muito grande; quando levava uma marruada de um bezerro e até quando doía as costas...

- É um santo remédio, doutor! É só tomar que eu fico bonzim! Parece vitamina!

Este santo remédio foi descoberto há quase 100 anos, pelo médico escocês Alexander Fleming. Reza a lenda que o brilhante pesquisador saiu de férias num mês de Agosto para curtir o verão europeu e esqueceu de guardar as placas de cultura de bactérias que cultivava em seu laboratório. Quando retornou, em Setembro, notou as placas na bancada, cheias de bolor, e já ia limpando e esterilizando quando notou que algumas culturas haviam sido destruídas pelo fungo. Descansado e bronzeado, dedicou-se a pesquisar o fungo e descobriu a Penicilina, o que lhe rendeu um prêmio Nobel de medicina e um título de cavaleiro do Reino Unido.

Décadas se passaram e o uso abusivo e indiscriminado deste antibiótico miraculoso o tornou obsoleto para uma variada gama de bactérias. Justificativas? As mesmas dadas pelo seu Josué. Não muito tempo atrás, havia quem usasse os restos do pó nos frascos para passar em feridas, contribuindo mais ainda para seleção de cepas resistentes.

Para complicar a história, ainda existe o fato de que a penicilina benzatina é usada de forma injetável, tipicamente intramuscular, com um ônus ao paciente – dói.

Eu era apenas um garoto quando tive minha nádega direita beijada pela famigerada. Na época, sofria de impetigo, uma infecção de pele. O algoz foi meu padrinho, médico. Enquanto aplicava, parecia que estava abrindo minha carne a sangue frio. A desgraçada dói pra caramba! Um sujeito em plenas faculdades mentais não tomaria essa medicação de forma rotineira.

Ainda interno, ficava condoído com aqueles que saíam do consultório com a receita de benzetacil. A primeira vez que a prescrevi também foi acompanhada de um sentimento de dó. Um garotinho de 6 anos que desenvolvera febre reumática e estava condenado a tomar uma dose a cada 21 dias pelo menos até completar 21 anos.

Infelizmente, no processo de diagnóstico e tratamento, muitas etapas são dolorosas e penosas aos pacientes. Uma criança não entende por que deve ter seu sangue retirado, ou por que deve tomar uma injeção todo mês. Apenas sofre. Pior ainda. Nós médicos nos tornamos cada vez mais alheios ao sofrimento de nossos pacientes. Curar, aliviar, consolar – o antigo, belo e negligenciado ditado.

Mas então procurei me colocar no lugar do seu Josué – uma mistura de pouca letra com uma bagagem cultural repleta de desinformação e maus costumes. De outra forma, talvez a dor causada pela injeção aliviasse a que lhe corroía o âmago. Substituir uma angústia na alma por outra na carne, esta última fácil de localizar, de causa bem determinada e limitada.

É obvio que não lhe entreguei a receita. Em contrapartida, ofereci meu tempo. Convidei a uma consulta no posto para discutirmos a real necessidade do medicamento, orientei quanto aos riscos da automedicação e o deixei a vontade para me procurar sempre que julgasse preciso.

* Nome alterado para preservar a identidade.

sábado, 11 de agosto de 2012

Hoje é Sábado!


                       
A Criação de Adão, por Michelangelo Buonarroti, Capela Sistina, Roma, 1511 

No princípio... disse Deus: “Haja luz”, e houve luz. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz dia e às trevas chamou noite. Passaram-se a tarde e a manhã. Este foi o primeiro dia (Gn 1:1,3-5). Depois disso, passaram-se mais cinco dias e o homem chegou à Terra. Aí, no alto de sua divindade, Ele tirou o sétimo dia para descansar!

Todos conhecemos a fábula criacionista judaico-cristã, supostamente escrita por Moisés junto aos outros livros da Torá. O fato é que a narrativa contempla um período de sete dias, que culminou com a nossa sagrada semana, iniciada no domingo e pulverizada no sábado, o dia de “apaziguar nossos corações” com descanso. O certo é que esse foi um número bem arbitrário, de cunho absolutamente cultural. Outros povos da antiguidade obedeciam calendários com números variados de dias, sempre mais que um e menos que 30!

Mas para que serve isso mesmo? Nossos antepassados pouco se importavam que a segunda-feira era dia de trabalho, terça de paredão, sexta de cerveja e domingo do Faustão. A vida de coletor não necessitava de marcações. Mas a agricultura nos forçou a pensar no tempo. Eram sabidas as estações do tempo, quando chovia mais e quando não se aconselhava plantar. A mesma agricultura possibilitou a formação das primeiras sociedades organizadas, e com elas vieram as obrigações e os cultos. Então havia o dia de trabalhar e os dias dedicados as deidades. Os egípcios e os chineses tinham suas semanas de dez dias, enquanto sumérios e gregos reconheciam apenas sete, um para cada deus-planeta. Outros povos africanos, como os Igbos nigerianos, se resumiam a apenas quatro!

Toda essa conversa nos leva ao pequeno município isolado num grotão perdido do interior piauiense. Apesar da chegada da modernidade, com mercados e outras lojas sofisticadas, a maior parte da população ainda se dedica exclusivamente à agricultura, dela retirando seu sustento e dela padecendo. E para que serve uma semana de sete dias para eles? Não importa que hoje seja terça ou domingo! Se chegou a hora da colheita, não é muito sagaz deixar a produção se estragar somente por que hoje é sábado.

Do outro lado, a população dispõe apenas de uma única unidade básica de saúde, a qual funciona regularmente de segunda a sexta em horário comercial. Nos outros períodos, o estabelecimento fica fechado, sob a guarda de um vigia.

Residir no mesmo pequeno município em que se trabalha tem dessas coisas. A emergência mais próxima fica a três horas de viagem. Então não importa a hora ou o dia da semana, se há uma necessidade, eles já conhecem o endereço. Então seja pra assinar uma receita ou mostrar uma criança febril, a segunda porta que procuram, depois do posto, é sempre a de minha casa. O complicado é explicar que lugar onde se mora não é consultório! Há um ano venho martelando nesse quesito, com pouco sucesso.

Aí chega um abençoado sábado! A unidade fechada e eu em casa. A manhã corre tranqüila quando, de repente, uma moto estaciona na porta e descem dois indivíduos, um homem e seu filho. O mais velho bate na porta e vou ver quem é.

- Oi!
- Com licença! O médico mora aqui?
- Sim, sou eu!
- É que fui no posto e estava fechado.
- É por que hoje é sábado!
- Ah!
Silêncio.
            - Então não tem atendimento no posto hoje?
            - Não, por que hoje é sábado!
            - Ah!
Silêncio...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A Perna, o Cérebro e o Coração


O Sr Casimiro* compareceu ao meu consultório pela primeira vez há um ano, num mês de Junho como esse. Um senhor distinto, com pouco mais de 50 anos, estatura mediana, olhar sincero e com uma queixa bastante curiosa. Há alguns meses vinha apresentando uma dormência no dedão do pé direito, acompanhado de dor e cianose da extremidade. Era fumante e tinha uma barriga bem generosa, fruto de muito beiju (tapioca) e carne assada – tipicamente consumida diariamente na localidade onde morava.

Durante a consulta, descobri que também era hipertenso e fazia uso bastante irregular das medicações. Procedi com o exame físico e observei que os pulsos periféricos da perna direita estavam bastante comprometidos, fortalecendo a hipótese de insuficiência vascular arterial periférica. Solicitei alguns exames, orientei que consultasse um cirurgião vascular e otimizei seus medicamentos para pressão. Então ele sumiu!

Meses depois, fui procurado por um de seus filhos que solicitou uma visita domiciliar, pois seu pai fora operado e não poderia se deslocar até o posto de saúde. Fui vê-lo na primeira oportunidade e fiquei bastante surpreso com o que vi. Seu Casimiro estava sentado no sofá, trajado com bermuda, um par de muletas repousava ao seu lado e apenas uma perna estava apoiada ao chão. Do outro lado, o coto de um membro recentemente amputado! Então ele me relatou o que havia se passado nos últimos meses desde aquela consulta. Fora a Brasília e os médicos confirmaram o que havia dito anteriormente. Entretanto pediram alguns exames e a fila interminável do SUS o premiou com uma infecção no pé doente. Veio embora para Teresina onde um colega ex-residente do HUWC o recebeu e procedeu com a amputação do membro afetado, dada a sua inviabilidade.

Agora, seu Casimiro apresentava a estranha queixa de sentir, por vezes, a sensação de moscas ou formigas andando por sua perna inexistente. Em outras ocasiões, era acometido por fortes câimbras no mesmo membro. Estava encabulado e até receoso de afirmar tais situações diante de seus familiares, pois temia ser taxado como louco.

O termo membro-fantasma foi citado pela primeira vez pelo médico Silas Weir Mitchell que serviu nas trincheiras da guerra civil americana e atendeu milhares de soldados que apresentavam as mesmas estranhas queixas. Décadas antes, o famoso almirante inglês Lorde Nelson, o qual perdera o braço direito durante uma batalha em 1797, também relatara a sensação da persistência do membro, apesar de não vê-lo. Nessa época, concluiu que a sensação era a prova irrefutável da existência e imortalidade da alma, que persistia a extirpação da carne.

Hoje entendemos o fenômeno de uma maneira bem diferente – longe dessa aura mística – e ficamos maravilhados com as novas descobertas no campo da neuroplasticidade. Numa explicação superficial, nosso cérebro possui áreas delimitadas que recebem/geram estímulos para cada setor do corpo. Quanto mais usamos uma dessas partes (o dedo indicador, por exemplo), maiores serão suas representatividades no córtex cerebral. Da mesma forma, quando percebemos um estímulo (e quanto maior ele for), maior será também sua representatividade no cérebro.

Um pé doente, pouco mobilizado e constantemente doloroso, gera más lembranças ao córtex. Quando amputado, novos estímulos deixam de chegar/sair pelas vias neurais, reforçando cada vez mais o estado doloroso/imóvel do membro. Essa seria uma simplória explicação para as estranhas sensações de um membro fantasma.

Mas os cientistas foram além! Perceberam que ao manipular objetos, nosso córtex se expande e passa a englobar o instrumento, aceitando como algo próprio do corpo. Isso explicaria a perícia dos espadachins e outros guerreiros que praticavam anos e anos com suas armas. Também explica algo mais inusitado ainda!

O coração partido.

No princípio, o amante, inebriado pela presença do ser amado, faz de cada momento juntos uma descoberta. Tudo é curioso, cada detalhe é importante. Nesse período, seus córtices começam a ajustar a fina sintonia que irá caracterizar o casal. O tempo passa e logo o amante se funde ao ser amado, um ser absorve o outro e essa ligação é profundamente marcada em nossos cérebros (corações!). A dor de um passa a ser a agonia do outro. Qualquer sensação se confunde. A distância nos faz sentir incompletos.

Então algo acontece e vem a separação. Ninguém preparou seu cérebro pra isso e, de repente, estamos à mercê do caos. Nada mais tem graça, tudo perde sabor, o coração palpita e a respiração falha. Dói! Dói muito. A paixão – sofrimento – se faz valer na carne. Uma parte considerável daquilo que já lhe definia some de repente, é traumaticamente amputada. Para os amantes, uma dor que não passa, que lhe acorda, que dorme junto e lhe preenche os sonhos. Uma dor para a qual não inventaram analgésicos e, mesmo se houvesse, não seriam aceitos, pois é ela que ainda lhe mantém vivo. A dor é o último resquício da presença do ser amado e perdê-la decretaria o fim de tudo!

Um dia, menos tempo, mais tempo, ela suaviza e se esvai, deixando uma leve cicatriz no coração (cérebro), que ainda pode ser cutucada ou mesmo revisitada. O fantasma não vai embora, apenas adormece.

Texto livremente inspirado nas obras “Muito Além do Nosso Eu” de Miguel Nicolelis e “O Cérebro que se Transforma” de Norman Doidge.

*Nome modificado para preservar a identidade.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ela, de Novo



Ela voltou! Talvez nunca tivesse ido embora. Estava apenas a espreita, adormecida, aguardando a hora de despertar e lançar seus tentáculos gélidos sobre mais uma pobre vítima. Passava por nós incólume, alheia, oculta. Mas aí chegou seu momento, então surgiu impiedosa, vestindo o negro, foice na mão e o destino selado de alguém.

O assunto é recorrente, contudo nada mais natural na vida do que a morte! A única certeza que temos durante nossa existência, a niveladora de todos os homens. O grande diferencial está na forma como nos entregamos ao fim. Todo o processo conta. Há os que desistem e tomam a iniciativa e há aqueles que lutam bravamente contra a correnteza. Algumas pessoas se desesperam diante da aniquilação enquanto outros se deixam levar serenamente. Uma coisa é fato: no derradeiro momento estamos sós e a dignidade com a qual a enfrentamos é algo muito relativo.

Era uma segunda-feira de dezembro quando fui convidado a visitar o seu Mocim. Assim ele era conhecido. Um senhor franzino, pardo, de orelhas imensas e que morava perto de mim. Eu conhecia toda sua família e até trabalhava com alguns. Sempre que passava em frente a sua casa, estava lá sentado, sorridente, fumando um cigarrinho de palha. O “epa!” era marca registrada de sua figura.

Há alguns dias, estava indisposto, cansado, sem muito apetite, vomitando após pequenas refeições e com as pernas inchadas. Nunca o havia atendido no posto de saúde, até por que se negava a ir, exaltando sua saúde de ferro, mesmo com 76 anos de vida. Conversamos sobre seus sintomas e pedi permissão para examiná-lo. Foi quando o diagnóstico começou a se formular. No abdome, à direita, uma massa grande, dura e irregular ocupava o espaço que pertencia ao fígado. Solicitei alguns exames e, após muito diálogo, eu o convenci a viajar para fazê-los numa cidade próxima.

O resultado chegou na quinta-feira da mesma semana. Junto a ele, todo um processo fascinante, que apenas pequenos municípios oferecem.

Fui ver o seu Mocim em sua casa assim que me desocupei do consultório. Faria esta peregrinação por mais alguns dias até o desfecho da história. O simpático senhor fora acometido por um câncer que lhe tomava grande parte do abdome e estreitava a passagem da comida pelo esôfago. Chegou mais debilitado, por conta da inanição e da viagem. Estava instalado no próprio quarto, seu último refúgio. Junto a minha equipe, tomamos os devidos cuidados para aliviar o sofrimento daquela alma. Oferecemos a possibilidade de uma sonda, a qual foi prontamente negada. Aceitou apenas soro intravenoso, mas também o rejeitou dias depois.

Apesar de todos os incômodos trazidos pelo agravamento do quadro, nunca deixou escapar um “ai” ou lamento sequer. Afirmava categoricamente que estava se sentindo bem sempre que era questionado e negava qualquer medicação oferecida. Sempre o visitávamos pela manhã cedo e ao meio-dia. À noite, acampávamos todos na frente de sua casa até altas horas. Família, vizinhos, amigos, todos compareciam à casa do seu Mocim para se despedir e trazer seus sentimentos. Dessa forma se passaram cinco dias.

Na terça-feira seguinte ele se calou. Passou o dia inconsciente, respirando com sofreguidão. Os ossos já eram visíveis sob sua pele magra. Estirado no leito, lutava bravamente por cada milímetro de ar a que tinha direito. Às dez horas da noite, iniciaram as orações, pedindo que o sofrimento daquele homem tivesse fim e ele pudesse serenamente descansar em paz. Estava a sua cabeceira, estetoscópio ao redor do pescoço, lágrimas nos olhos e acompanhando suas últimas inspirações. Seu tórax subia e baixava cada vez mais devagar. O coração, por toda a vida um bravo, ameaçava reclamar tantos anos de trabalho ininterrupto.

Então acabou.

Pela primeira vez na vida, declarei que alguém estava morto. O sentimento de impotência estava lá, a incapacidade de derrotar a morte – mas, novamente: a cura, o consolo, o alívio! – Assim como a lição do seu Mocim, que enfrentou a morte como lidou com a vida.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Palhaço


Tudo começa em casa! O seu Fulano* acorda cedinho, talvez tome um banho (pouco provável), coloca a primeira roupa que aparece, toma um café forte, masca um pouco de fumo, olha pro relógio e pensa “acho que já está na hora”. O momento é aquele, o dia escolhido a dedo, tem que ser hoje, não pode passar! Vou sacanear o médico!

Só pode ser isso, não tem outra alternativa!

Digo isso porque não falta semana em que pareço ser feito de palhaço por alguns pacientes. Acordo cedinho, tomo um banho, como algo, me arrumo e vou trabalhar, para a diversão e entretenimento de algumas criaturas que comparecem ao meu consultório!

Apresentado os personagens: o Augusto, ingênuo, que sempre é pego nas brincadeiras do Branco, o espertalhão!

Atenção, senhoras e senhores! Bem-vindos ao maior show da terra, com vocês o palhaço...

Ato 1: Alvoroço na recepção. Seu Fulano* chega exaltado, desesperado atrás do médico. Sua urgência me comove e permito que entre no consultório. Está suado e apreensivo. Traz a mão direita fortemente fechada, segurando algo que está prestes a revelar.

Suspense (que rufem os tambores!):
           
            - O que aconteceu?
            - Estava sentado na frente de casa, conversando com os vizinhos, quando percebi que tinha um mosquito me chupando o sangue. Aí eu trouxe pra ver se é o mosquito da dengue!

A plateia está em polvorosa! Coitado! Mais uma vez o Branco enganou o pobre Augusto!

Ato 2: Quase meio dia, senta uma moça de seus vinte e tantos anos! Aparência serena, tranquila. Ledo engano! Aquela mente perversa estava para aprontar mais uma das suas.

            - O que foi que houve?
            - Dor de cabeça!
            - Você está com dor de cabeça (já vi isso em algum lugar)?
            - Não, agora não! Isso foi há três dias. Agora não sinto nada!

O Augusto parece que vai explodir! Vejam a cara dele, vermelha feito um pimentão! Olha a cara maquiavélica do Branco! Que maldade!

Ato 3: Dessa vez deve ser sério! Uma senhorinha, de seus não-sei-quantos-já-me-esqueci anos, entra a passos lentos, um sorriso de bom-dia, senta e estica o braço na mesa.

            - Queria ver minha pressão!
            - Vamos conversar primeiro e depois eu examino a senhora! A senhora está aqui por quê?
            - Pra me consultar!
            - Certo, mas por quê?
            - Porque tô doente!
            - Certo, doente de quê?
            - Não sei, por isso vim me consultar!

A tensão aumenta! Mas aquele sorriso desdentado explica tudo. Mais uma senhorinha sem muita instrução. Preciso mudar os argumentos se quiser chegar a algum lugar!

            - O que a senhora está sentindo?
            - A meu“fi”, é muita dor!
            - E onde é essa dor?
         - É uma dor que sai aqui do cachaço, corre pela espinhadeira e fica apontando na alcatra! Aí fica saindo de um joelho pro outro a noite toda, chega as veia do braço incha e a cabeça fica assim, olha!

Em que capítulo do livro de semiologia se encontra tal descrição mais engenhosa? O Augusto leva as mãos ao rosto e respira fundo!

            - Deixa eu ver sua pressão!

Aí está! A plateia não se contém e debocha do coitado. Do outro lado, o Branco sorri orgulhoso de mais uma vitória!

Já fui palhaço! Quando universitário, entrei para o fabuloso Projeto Y de Riso, Sorriso e Saúde. Éramos estudantes de medicina, enfermagem e psicologia. Após uma capacitação nas artes do Clown, corríamos pelos corredores do Hospital Universitário trajados de doutores-palhaços, diagnosticando as doenças mais malucas, receitando alegria e tratando com humor e diversão pacientes, acompanhantes e profissionais. Eu era o dr. Grandão! Foi uma breve passagem, na verdade, mas pude ver em ação os encantadores dr. Acerola e dra. Tampinha, a travessa dra. Mentirinha e a doçura da dra. Pinguinho! Sem contar os outros que tanto me cativaram e por quem tenho profunda admiração.

Abandonei o projeto, mas conservei o espírito! Assim como eu, todos os doutores-palhaços da minha época também aposentaram o nariz vermelho, mas preservaram o carinho e atenção que dedicaram especialmente às crianças da ala pediátrica do HU.

A velha brincadeira do Augusto e do Branco se passa diariamente nos consultórios médicos de todo o país. Contudo, os papéis encontram-se normalmente invertidos. Trajados de jaleco, bem arrumados, somos os carrascos Brancos, enquanto nossos pacientes persistem sendo os ingênuos Augustos. A dinâmica deste jogo afeta diretamente como somos vistos pela sociedade. Já passou do momento de diferenciarmos o picadeiro do palco de nossa verdadeira prática!

Chego em casa, lavo o rosto, guardo o nariz vermelho e descanso de mais uma apresentação!

*Nome alterado para preservar minha integridade!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dor de Cabeça

Durante a faculdade, aprendemos a fazer perguntas! Refletindo um pouquinho sobre o assunto, acredito que aprender a fazer perguntas é a base para o conhecimento. Perguntamos e procuramos pelas respostas. Reunimos tudo numa sacola, acessamos os recônditos de nossas memórias, misturamos com a (curta!) experiência, associamos fatos e pronto: diagnóstico. Até aí tudo bem!

Um paciente chega com dor de cabeça. Automaticamente, listamos um conjunto de indagações próprias da semiótica para cefaléia. Idade? Sexo? Profissão? Dói onde? Há quanto tempo? Freqüência? Intensidade? Prôdromos? O que melhora? O que piora? Alguma outra queixa relacionada? Destas perguntas extraímos o material necessário para o diagnóstico diferencial, passando por estresse, infecção, enxaqueca, câncer, dentre outros. Um exame físico mais minucioso e o espectro de doenças se estreita. Alguns exames complementares e fechamos. Tratamento, bom dia e tchau.

Esse seria o roteiro perfeito para uma consulta, com desfecho agradável e felicidade para ambos os lados. Mas a realidade é diferente e infelizmente, existem mil causas diferentes de dor de cabeça. A pior delas, acredito, é a que nos assolou recentemente, causada pela histeria da população. Explico!

Carol*, 19 anos, chega à unidade de saúde se queixando de febre e dor de cabeça muito forte. Medicada, melhora substancialmente e volta para casa. No dia seguinte, morre. Cesar*, 33 anos, inicia um quadro súbito de dor de cabeça após libação alcoólica. Avaliação primordial mostra apenas cefaléia de provável ressaca. Medicado, pouco alívio. Encaminhado a um hospital de emergência, reencaminhado a um serviço terciário, morre 20 dias depois.

Nos dias seguintes, uma avalanche de pacientes reclamando de dor de cabeça invade a unidade de saúde. Uma luta infernal para ser consultado. Lista na mão: idade, sexo, profissão, onde, quando... Ao final do dia, muito analgésico depois, a dor de cabeça é a minha. Lista na mão! Homem de 26 anos, médico do PSF, cefaléia fronto-temporal, de início recente (há poucas horas), de leve/média intensidade, sem prôdromos, sem fotofobia, agravada pelas queixas de cefaléia infundadas e com melhora após um pouco de silêncio, paracetamol e um banho! Ausência de outras queixas. Ao exame, bom estado geral, sem qualquer achado relevante. Diagnóstico?

O assombro populacional após duas mortes relacionadas à cefaléia gerou uma histeria. Antes todos tinham dores de cabeças ocasionadas por consumo exagerado de café, álcool, trabalho extenuante, condições difíceis de vida... É claro que sofriam, mas tinham suas medidas para saná-las. De repente, sua dor de cabeça tornou-se uma ameaça insuportável. Ninguém parou para contemplar os fatos. Empiricamente, associaram: dor de cabeça igual à morte. Eliminaram da equação todo o resto!

Carol fora passear em outro município assolado por inúmeros casos de dengue. Apresentou febre e outros sintomas típicos da doença. Desenvolveu um quadro de choque hemorrágico da dengue e morreu. Estava ausente da cidade e não pude avaliá-la quando procurou o serviço de saúde. Cesar era epiléptico, recém-operado de estreitamento de esôfago de causa obscura, negava quaisquer das doenças, bebia sem moderação e morreu de acidente vascular maciço após quadro de encefalite viral.

Duas exceções que resolveram se passar num minúsculo município, de habitantes em sua maioria analfabetos ou de baixíssima escolaridade, pouco esclarecidos em qualquer assunto que ultrapasse as fronteiras da cidade. Em outras palavras, não souberam fazer os questionamentos necessários para perceber quão extraordinária era aquela situação. Por outro lado, a faculdade ensina a fazer perguntas de certo modo dirigidas a uma única pessoa, mas somente a prática ensina a lidar com as conseqüências das respostas, ainda mais quando vem de diferentes fontes. Coletar e associar! 

* Nomes alterados para preservar a identidade.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

José e as Correntes

Estes são os relatos dos três desfechos de uma mesma história.



Eram três Josés*, todos filhos da cidade, mesma faixa etária, habitantes da zona rural, família grande. Também compartilhavam do mesmo problema. Ainda na infância começaram a apresentar um comportamento estranho, isolando-se, afirmando ver/ouvir coisas, perdendo-se de casa todas as vezes que saiam num passeio desnorteado, incapazes de conviver entre os pares. Os três compartilharam do mesmo desenvolvimento. Cresceram com crises de violência, perda da capacidade de comunicação, insones e, para família, malucos. Os três compartilharam do mesmo tratamento. Foram condenados a viver em celas imundas, dormindo e fazendo suas necessidades no chão, presos com grossas correntes pelo tornozelo por um crime que nunca cometeram.

Então os trilhos de suas vidas se separaram.

Há alguns anos, em virtude de toda a campanha do Fome-Zero do Governo Federal, os olhos do Estado finalmente se voltaram para este bolsão de pobreza, trazendo consigo todo um aparato de técnicos das mais diversas áreas para desenvolver e mudar a região. Os profissionais de saúde que aqui trabalhavam, e aqui destaco o mérito da coordenadora de saúde Idvani e sua equipe, empenharam-se em mudar o paradigma dos Josés, resgatando-os de suas prisões e finalmente oferecendo-lhes a oportunidade de serem avaliados no Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) de uma cidade vizinha.

Suas situações foram estudadas e cada um foi devidamente medicado, propondo o nascimento de um novo sol em suas vidas. Contudo a história não terminou tão bela para todos.

O primeiro José, um rapaz de tez morena, franzino, retornou para casa e foi recebido de braços abertos pela família. Suas correntes foram rompidas e agora era permitido e convidado a transitar por sua comunidade. Tive a oportunidade de vê-lo andando de bicicleta pelas ruas e, depois, bem vestido, de terno e gravata, indo ao culto de sua igreja. Quando visitei sua casa, fui recebido com um aperto de mão alegre e caloroso. A felicidade de sua mãe ao comentar os avanços no tratamento transbordava de seu sorriso.

O segundo José, gordinho e de pele alva, também abandonou seus grilhões. Talvez fosse o que tivesse pior passado dos três. Sua cela era afastada da casa e o tratamento que recebia não seria dispensado a um cão. Medicado, não foi recebido em casa. Tinham medo dele. A solução foi levá-lo para uma instituição na capital Teresina, onde hoje vive, feliz e alheio ao desprezo da própria família. Este não tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, mas pude vê-lo por fotos, em seu aniversário, alegre. Tampouco conheci sua família.

Quanto ao último José, conversando com os profissionais que o levaram para São Raimundo Nonato, era encantador escutar os relatos de sua felicidade dentro do carro. Dançava inquieto as músicas que o motorista colocava no rádio. Sua primeira experiência com sorvete foi hilária, devorando um atrás do outro, como me contaram as testemunhas. Foi avaliado pelo psiquiatra e medicado. Retornou para casa na esperança de se livrar das correntes e ser reincorporado por sua comunidade.

Um ano se passou e fui visitá-lo pela primeira vez. Lá estava ele, num quarto dos fundos da casa, sem móveis, apenas uma janela que dava para o poente. No chão, um imenso quebra-cabeça montado de EVA fazia às vezes de tapete. Várias cobertas espalhadas pelo chão e José abaixo delas. Percebi no canto um balde sujo e o cheiro forte de urina. Sua mãe lhe chamou pelo nome e ele se levantou, apenas de calção. Era longilíneo, barbudo, magricela. Percorri com os olhos todo o seu corpo até que me deparei com seu tornozelo, enfeitado com uma volta de grossa corrente, presa com cadeado, e que corria até a parede, desaparecendo por um buraco.

Conversando com a enfermeira da área, fiquei sabendo que todas as tentativas de medicação de José esbarravam na atitude da família, que não parecia interessada em sua recuperação. Nunca deixavam faltar os benzodiazepínicos, pois o faziam dormir. Mas as drogas que o resgatariam deixavam de dar, ou mesmo faltar. O sono traz uma morte aparente, situação confortável para eles.

Agora, desprovido da presença do Estado, com o fim dos esforços do Fome-Zero, distantes do período eleitoral, o desafio de resgatar nosso José tornou-se uma tarefa difícil. Reunimos enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e iniciamos uma nova campanha. Contudo, o maior desafio será convencer a família, agente indispensável para a recuperação de nosso prisioneiro.

Estes são fatos que se repetem aos milhares pelo interior e até mesmo nas grandes cidades do Brasil. A carência de serviços e profissionais preparados para lidar com o paciente mental revelam a fragilidade do nosso sistema de saúde e das políticas voltadas para o problema. Mas com perseverança e estudo, vamos aos poucos tentar mudar este triste quadro.


* Nomes modificados para preservar as identidades.

sábado, 19 de novembro de 2011

Eu, a TV e seu Irandir


O intelectual e desertor da medicina Apparício Torelli, mais conhecido como Barão de Itararé, emprestou-me essas palavras: a televisão é uma das maravilhas da ciência da humanidade a serviço da imbecilidade humana. É claro que concordei! Quem se presta a conferir as atrações das principais emissoras deste país não encontrará nada melhor que novelas absurdas, programas de auditório tolos e sangue. Nossa persistência em frente a telinha ainda nos premia com algumas partidas de futebol ou um filme minimamente decente.
            
Mas como sinto falta!

A televisão emburrece, contudo pode ser um veículo primoroso de educação. Canais fechados como Discovery, National Geografic, A&E entre outros sempre trazem bons documentários, mostrando passado, presente e tendências futuras nas diferentes áreas de pesquisa. Mas essa é uma realidade que não me pertence mais. Estou isolado no sertão nordestino, convivendo com uma TV que só pega estática e, às vezes, a rede do bispo. Crueldade!

O lado bom? Tempo! Se a TV emburrece, a sua falta me forneceu muito tempo para me dedicar aos livros, dar passeios, conversar com vizinhos e outras...! Plena quarta-feira de cinzas e não faço ideia de quem venceu o carnaval, quem ganhou nos campeonatos estaduais ou o que se passa no mundo! Se por acaso ele acabar, por favor, alguém mande me avisar!

***

Como toda cidade do interior, Guaribas guarda suas figuras excêntricas. Conversando com vizinhos ou tomando relatos pessoalmente, conheci algumas histórias dignas das melhores comédias. O seu Irandir*, por exemplo: magrinho, 62 anos, fumante inveterado de cigarro de palha. Anda sempre em companhia de sua cadela, a qual negou um nome, mas que sempre segue seus passos e faz questão de avisar quando é hora de voltar pra casa.

Conversando com a turma em frente de casa, ele relatou um dos acontecimentos mais bizarros que já ouvi! Com a fala rouca e os olhos trocados (vesgo que só ele!), puxou uma folha de caderno do bolso para confeccionar um novo cigarro enquanto proseava. Contou que na sua juventude, viu todos os seus amigos se casando e decidiu que faria o mesmo. Arranjou uma mocinha e casou de prontidão. Semanas se passaram e resolveu confidenciar para um colega:

            - Olha que não entendi esse gosto de casar de vocês. Casei também e não vi vantagem ainda!
            Seu colega, sobressaltado, indagou:
            - Oh! Oh! Oh! A gente casa é pra "usar" a mulher! Câ tá é atrapalhado! Cê já "usou" a sua?
            Ingênuo, seu Irandir tomou um susto!
            - Vixe Maria! Usar pra quê, tolo?

Neste instante, quase não suportei de tanto rir! Seu Irandir prosseguiu com a história, dizendo que seu colega o ensinou passo-a-passo como devia fazer com sua mulher. Desde então, entendeu finalmente o porquê de casar! Aí sua cadela latiu e os dois tomaram o rumo de casa.

*Nome alterado para preservar a identidade.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sabedoria


Desde que tomei um olhar crítico sobre mim mesmo (belas palavras colhidas do filme Meu Nome não é Johnny, 2008, mas de autoria da escritora belga Marguerite Yourcenar), tenho de certa forma tentado trilhar um caminho que me leve a sabedoria! Encontrar o caminho do meio, como fez Sidarta milênios atrás me pareceu uma bela justificativa para esses anos que passamos sobre a superfície deste singelo planeta. Qualquer outra explicação para o sentido de nossa existência foi prontamente negado, a não ser que alguém encontre a pergunta certa cuja resposta é 42. Aí talvez as coisas mudassem, mas até lá, caminho do meio.

A primeira tarefa seria me despojar dos pecados capitais, entre eles o pior, a vaidade, mas deixemos esse assunto para outro texto. O segundo passo seria descobrir o que faz de um homem uma pessoa sábia. Empolgado, corri atrás de conselhos e textos destes ilustres e fiquei assombrado com o que encontrei: silêncio!

Como poderia o mutismo ser a resposta para minhas angústias? Mas está lá e os antigos já sabiam. O silêncio é a virtude que nos evita falar ou ouvir tolices. Bom provérbio para começar! A regra número um seria conservar as palavras bem guardadas. Palavra é flecha lançada. Jamais volta! Ano passado, cometi uma injustiça contra uma colega, comentando levianamente que ela teria fraudado um concurso. Já a conhecia há 6 anos e sabia de antemão que a garota não seria capaz de cometer um ato tão absurdo. O certo é que me arrependo amargamente de tal fato e ainda me envergonho do acontecido.

Muitas vezes se diz melhor calando que falando em demasia. A fofoca nasceu de uma série de acontecimentos que me levaram a julgar precipitadamente. Conversei com 3 ou 4 pessoas sobre isso e esqueci. Meses depois, a garota me procurou e falou sobre o assunto. Um banho de água fria! Quem fala o que quer, ouve o que não quer. Desculpei-me, mas ficarei marcado como tolo. Pessoas não abrem a boca para elogios, mas para depreciação. Por 6 anos comentei como a achava bela, inteligente, legal. Apenas as ofensas chegaram aos seus ouvidos.

Quando falares, cuida para que as palavras sejam melhores que o silêncio; Quantas vezes devemos errar para dar crédito a esses ensinamentos? Ford Prefect (O guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams) acreditava que os seres humanos falavam sem parar com a finalidade de evitar ouvir os próprios pensamentos. Tagarelar para esconder o quão vazio os são? Temos dois ouvidos e uma boca. Ouçamos mais e falemos menos.

Outro provérbio interessante fala assim: nascemos com olhos fechados e boca aberta; vivemos tentando consertar este erro da natureza. Acredito que este é um atributo dos sábios. Durante 2 semestres da faculdade, tivemos aula com o Dr. Rino, padre e psiquiatra, o qual persistiu para que compreendêssemos a importância de escutar o que os outros tem a dizer, não importando a origem do discurso: professor, colega ou paciente. De certa forma era um tanto triste notar uma ponta de frustração do mestre ao final de cada aula. Nossa cultura ocidental não tolera o mutismo e se afoga nas próprias palavras! A sabedoria vem de escutar; de falar, vem do arrependimento.

Os espartanos sustentaram uma sociedade que prezava as poucas palavras. Sábios, entediam que elas pouco valiam. Um grama de exemplos vale mais que toneladas de conselhos. Um ato que vale por mil palavras. Não sou partidário do mutismo total. Não teríamos abandonado as savanas, construído ferramentas e viajado ao espaço se negássemos este dom, mas tal habilidade é diariamente massacrada pelas ruas, rádios, TVs e outras mídias. A palavra é prata, o silêncio é ouro. Estamos nos perdendo por pouco!

Pega-se o touro pelos chifres; o homem pelas palavras. O complemento deste provérbio ainda diz: e a mulher pelo elogio; Arrisco a dizer que a vaidade nos leva facilmente a soltar a língua. Humildade é outro atributo dos sábios. Assunto polêmico! Não sou humilde. Não dá maneira que as pessoas acreditam ser humilde. Não diminuo minhas façanhas, não nego o que sei nem escondo sobre falsa simplicidade minhas proezas. Está certo que nunca fiz grande coisa (não é falsa humildade), mas planejo grandes coisas para minha vida. Sonho alto pra não esquecer meus sonhos! Aprendi que cada pessoa tem sua régua para medir seus atributos e ambições. O mais difícil seria entender que minha régua não se aplica a vida dos outros.

Duro caminho para sabedoria! Bem longe mesmo de alcançar. O mais interessante é que não vivemos para sermos apontados como sábios. Enquanto vivos, estamos propensos a cometer todos os erros possíveis. Somos pontuados pela dimensão dos erros! Viva o Ocidente! Temos que morrer para computar a fatura e só assim, sermos categorizados: comum, tolo, sábio. O homem comum fala, o sábio escuta e o tolo discute.

Tão importante quanto ouvir é criticar o que se ouve. Aí não seríamos sábios, mas tolos mudos! Da mesma forma, devemos estar preparados para falar a coisa certa na hora apropriada. Albert Einstein disse que o mundo não estava ameaçado pelas pessoas más, mas por aquelas que se calam diante das maldades. Diga a verdade e saia correndo. Antes acreditava que a sabedoria era uma qualidade da velhice e esta, um bônus da covardia. Antes um covarde vivo que um bravo morto. Os conselhos de anciões, ponderados, sábios das aldeias, não comportavam jovens, sempre tão impulsivos. Mas para ser um ancião, deveria ter sido um grande guerreiro! Os covardes ficavam pelo caminho. Daí então um novo atributo do sábio: bravura!

Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem. Mas o que realmente sabemos? A verdade é apenas a constatação de um fato. Não acrescenta valor. Silêncio, atenção, prudência, auto-crítica, humildade e bravura são os grandes atributos de um sábio. Também seriam as características ideais para qualquer ser humano, caso fôssemos afeitos a ensinar bons costumes aos nossos filhos.

Termino então assim: Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância. Quando olhamos através das lentes de microscópios ou de telescópios, nos deparamos com universos infinitamente minúsculos ou grandiosos, que superam nossas capacidades de compreensão. O que realmente sabemos? Vivemos colecionando informações apenas para constatar quão ignorantes somos. Daí, um sábio por fim poderia chegar à decepcionante conclusão de que não passa de um tolo!

Regra número um: calado!

sábado, 3 de setembro de 2011

Sobre Pais e Livros


Fyodor Pavlovich Karamazov era um crápula. Um beberrão inveterado, afeito a todas as práticas e vícios condenados em qualquer sociedade possível. Emergiu incólume de dois casamentos, nos quais deixou 3 filhos e mágoas profundas. Em sua magistral obra, Fyodor Dostoyevsky relata os abusos cometidos pelo bufão, esmiúça as personalidades intrigantes de seus filhos e tem como desfecho o parricídio e a procura pelo culpado dentro da família Karamazov.

Mas este texto não é sobre o livro, mas por que interrompi sua leitura pela terceira vez em 6 anos! Para ilustrar melhor, tomaremos um novo rumo.

Em 1927, o pai da psicanálise, Sigmund Freud, lançou no ensaio Dostoievsky e o Parricídio as    primeiras impressões registradas na literatura sobre o comportamento masculino no complexo de Édipo. Para sustentar sua argumentação, apoiou-se sobre três grandes obras, a saber: Édipo Rei, de Sófocles; Hamlet, de William Shakespeare e claro, Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky.

O escritor grego relatou em sua tragédia o drama do rei homônimo que, cumprindo uma profecia antiga, assassina o pai e desposa a mãe. Ao tomar conhecimento da condição de marido da própria genitora, fura os olhos e parte pelo mundo como mendigo, a fim de espiar seus pecados.

Na outra obra, o dramaturgo inglês conta a história do príncipe da Dinamarca, Hamlet, que tem o pai assassinado pelo tio, o qual usurpa seu trono e toma sua mãe como rainha. O espectro do pai lhe aparece cobrando vingança, tarefa encarada com amargura pelo príncipe.

A perda do pai é a ação central das três obras. Entretanto, as intrigas geradas pelo ato são o verdadeiro motivo da excelência delas. Sófocles discorre sobre o tabu social do incesto, a culpa pela consumação do ato e as medidas desesperadas adotadas pelas personagens como punição. Shakespeare vai mais fundo mostrando a angústia de um filho frente ao enfrentamento do tio assassino. Por que Hamlet exita tanto em desferir o golpe fatal sobre o algoz de seu pai? A fúria com que cai sobre outros inimigos não é a mesma dedicada ao tio.

Já faz alguns anos que vivo um drama semelhante aos dos irmãos Karamazov. Cada vez que iniciei a leitura do livro, via estampada em suas páginas os sentimentos negativos cultivados pelo convívio conflituoso com meu próprio pai. Daí, não via outra solução senão fechar o livro e legar-lhe mais uma temporada de ostracismo em minha estante.

Admito que nem sempre vivemos de rugas. Houve uma época em que o considerava, como qualquer criança, meu herói. Contudo os anos passaram e com eles foi embora a venda que me impedia de enxergar a verdadeira figura de meu pai. Não obstante, perdi outras referências que usava como fortaleza e modelo a seguir. Da mesma forma, encontrei-me homem feito, irmão mais velho e protetor de minha família. Matei meu herói e lhe tomei a esposa. Quando dei por mim, encarnava o complexo de Édipo.

Os meses de distância permitiram que tomasse um olhar crítico a respeito de minhas atitudes e chegasse a essas conclusões, mesmo que imprecisas ou exageradas. Hoje assumo atitudes diferentes com relação ao convívio com meus pais. Entendi minha posição dentro da família, assim como minhas responsabilidades. Não fecho os olhos para o passado, entretanto tento ser mais cauteloso quanto ao futuro. Ainda não tive coragem de reabrir “Os Irmãos Karamazov”, mas pretendo um dia terminar sua leitura e encontrar novas respostas para esse dilema tão antigo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Curar sempre, aliviar quando puder, consolar quem?

“Curar quando puder, aliviar quase sempre, consolar sempre”. As sábias palavras de Hipócrates atravessaram milênios como exemplo da boa prática. Interessante como parecemos esquecer essas orações neste século. Avançamos a passos largos sobre inúmeras doenças cujo prognóstico reservado nos forçava buscar um alento ao paciente. Hoje temos a chave da cura de muitas moléstias, contudo ainda somos limitados pela nossa natureza humana de estreito espectro quanto a muitos aspectos da vida, especialmente quando se trata do término dela.

Nas aparências, a morte deixou de ser uma companheira natural das enfermarias e consultórios para se tornar um tabu. A tanatologia, estudo da morte, se desenvolveu nas últimas décadas, mas permanece confinada aos recônditos de nossas bibliotecas. A psiquiatra suíça Elisabeth Klüber-Ross descreveu em 1969, no livro “Sobre a Morte e o Morrer”, as várias etapas que atravessamos diante da perda ou do enfrentamento do próprio fim. Seriam estas, numa ordem uma tanto flexível, a negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação. Suas primeiras palavras foram “O que os doentes terminais têm a ensinar a médicos, enfermeiros, religiosos e aos próprios parentes”.

Neste ponto, volto dois anos atrás, quando ainda interno, na emergência do Hospital do Coração. Fui imerso num ambiente onde reinava a negação. A todo o momento, víamos alguém morrer, vítimas especialmente de infartos. O doente chegava, praticávamos as manobras de ressuscitação, anunciávamos a hora da morte e nos deslocávamos para as lanchonetes. Nada era discutido. Nossos pensamentos se voltavam para as partidas de futebol na TV, uma festa no fim-de-semana ou a próxima piada.

Meses depois, estava lotado na enfermaria de cardiologia do HUWC e fui encarregado de um paciente chamado José*. Era um simpático senhor de 69 anos, evangélico, animado e com uma família sempre presente, ladeando seu leito. Fora acometido por um câncer prostático e, durante tratamento, descompensou de uma insuficiência cardíaca até então desconhecida. Eu o conheci durante a cineangiocoronariografia. No laudo, várias lesões de tronco de coronária, tornando-o candidato a revascularização cirúrgica. Nos exames pré-cirúrgicos, uma ultrassonografia evidenciou múltiplas nodulações hepáticas sugestivas de metástases. Não podia operar o coração devido ao câncer e não podia tratar a próstata devido ao coração. Estava condenado. Relatório de alta e encaminhamento para manejo clínico paliativo. Morreu em fevereiro do ano seguinte.

Um ano se passou e estava encarregado de outra paciente na enfermaria cirúrgica. Dona Maria*, 43 anos, voltava para o “second look” após várias sessões de quimioterapia devido a um câncer de ovário. Durante operação, a cavidade abdominal fora revisada, destacando-se a ausência de câncer visível e possível cura. No pós-operatório, começou a apresentar febre, dispnéia e foi iniciado antibioticoterapia para infecção de sítio cirúrgico. Morreu de sepse 4 dias depois.

Em todas as situações descritas acima, eu era apenas um estudante. Minhas atribuições envolviam colher a história dos pacientes, executar um exame físico minucioso, avaliá-los diariamente, correr atrás de exames ou pareceres e estudar muito para discutir cada caso. Um dia era cardiopatia, noutro câncer, vasculites, pneumonias, AIDS, enfim, uma gama de morbidades que por vezes guardavam entre si apenas o desfecho: a morte. Mas a impressão que sempre ficava era a negação deste fato. Como lidar com a morte? Enquanto outros jovens estudavam direito, engenharia ou letras, estávamos lá, lutando contra a morte. Obviamente, havia aqueles internos que alcançavam os demais estágios descritos por Klüber-Ross, mas muitos permaneciam negando.

O tabu permanece. Derrotas são inaceitáveis neste mundo novo, onde apenas o sucesso é permitido. Falhas devem ser ignoradas e esquecidas. Erramos todos os dias negando que a morte deve ser vencida a qualquer custo e pecamos ainda mais quando não trazemos esta discussão para os novos médicos que se formam nos hospitais universitários deste país. A cada turma formada, perpetuamos a ignorância quanto ao fato monumental que recai sobre nossos ombros. Saímos em muitos aspectos imaturos quanto aos desafios de nossa prática. O campo de trabalho por vezes nos dará as lições erradas e até mesmo aprenderemos, contudo da maneira mais difícil.

Nos casos descritos, não houve cura. De certa forma, nosso empenho fora premiado com o alívio do sofrimento. Entretanto, a máxima do consolo, esta talvez também devesse ser dirigida também a nós, estudantes.

* Nomes alterados para preservar as identidades.